Pedalando Pela Paz

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Com o trecho um pouco acidentado, depois de 15 km cheguei em meu destino do dia na cidade, Santa Elena.  Logo fui recebido pelos cambiadores de dinheiro querendo trocar os meus reais por bolivares, mas primeiro dei uma pesquisada nas ofertas.  Ali troquei mais de R$1.000 (um mil reias) e na troca consegui 430 bolivares por cada um real. Lembrando que a moeda Bolivares é usada na Venezuela desde 1823 até os dias de hoje.  Depois fui procurar um quartel da policia para pedir o seu auxilio para eu poder passar a noite assim como no Brasil, e confesso que fiquei com  medo de me ser negado o apoio por eu ser estrangeiro, mas chorando um pouco consegui até que eles me indicassem para as outras companhias de policia durante a minha passagem pelo pais.   Só que ali eu não poderia ficar, então eles me levaram de carro para a policia de imigração, onde foi autorizado eu armar a minha barraca pela 14 vez no pátio onde estavam os carros batidos.  Tentei convencer ao guarda para que me deixasse tomar um banho, mas ele deu a desculpa de que não havia chuveiros, e sugeriu que eu tomasse banho de rio no dia seguinte quando fosse embora.   Achei muito estranho e sacana esta idéia, mas a dura realidade naquele momento foi que eu ja estava na segunda noite sem tomar banho.  Voltei para a minha barraca e lá passei uma noite bem dormida.

        Pela manhã, desmontei a barraca e fui comprar o meu café da manhã numa padaria, onde também comprei o mapa do Estado de Gran Sabana.  Então vi que estava entrando numa reserva florestal chamado de Parque Canaima, com  mais de 300 km de área verde em linha reta e sem muita urbanização, apenas alguns pontos de paradas turísticas com área de camping e comercio.  Depois do lanche, pé na estrada, ou melhor, no pedal.    

Eu por estar dois dias sem tomar banho, lembrei do conselho do policial e não deu outra, parei no rio Santa Tereza de água límpida a 15 km da cidade, tirei a roupa e fiz o chamado banho matinal,  nossa que alivio, até vocês podem sentir isso. Vi me pela primeira vez fazendo essa necessidade fisiológica a céu aberto.

 Quando ia saindo, passaram por mim três carros com família, deram meia volta e me deram algo de beber (cerveja e água), três famílias muito simpáticas que me desejaram muita sorte e registraram o encontro. Não esquecendo que ali eu fiquei conhecendo um mosquitinho muito pequeno com nome de piuns, que aumentou o numero de picadas para 67, e na oportunidade, perguntei a eles por que a gente não via o mosquito voar, fazer barulho e nem pousar em mim, só sentia a picada, que não era fraquinha pro seu tamanho.    No km 46 do odômetro, parei para descansar um pouco e beber água numa ponte sobre o rio Jasperi e ali levei mais cinco picadas do mosquito piun, acumulando 72 picadas.  Indo mais 15 km adiante, encontrei um posto da policia de imigração, tive que parar e mostrar o passaporte.   Naquela ocasião, encontrei um brasileiro indo para Boa vista com sua família, ele já estava morando na Venezuela a mais de cinco anos e me comprou alguns adesivos que serviram para eu fazer um lanche numa  pequena lanchonete ali mesmo.  Como não havia água potável,  fui obrigado a beber três refrigerantes médios com dois pasteis de queijo (450 bolívares = cerca de 1 real ), também fiquei sabendo um outro nome para o mosquito piun que passou a se chamar puripuri  e ganhei mais 8 picadas (80 picadas). 

Dali segui até ao destino do dia, mas não encontrei lugar para acampar, apenas alguns comércios e casas, então pedalei mais 13 km até o meu primeiro acampamento oficial (15º vez) em San Pacheco por voltas das 20:00 hrs, numa elevada subida. 

Pela manhã fotografei o acampamento com muitas barracas, que eles chamam aqui de carpas, de diferentes modelos e tamanhos, a minha estava lá no meio e eu preparando para pegar a estrada.   Já de pé no pedal, encontrei a placa de indicação dos próximos acampamentos (foto), e planejei dormir em Kamoiran cerca de 80 km de San Pacheco.  No km 14.85 do odômetro parei para descansar e fazer um rápido lanche das dez horas (foto). 

A 23 km dali cruzei com outros companheiros da bike, eram 4 ciclistas da cidade de Valença indo até afronteira e depois retornam em ônibus. Registramos o encontro e quando souberam que eu estava indo para os Estados Unidos queriam me acompanhar.

 Nos despedimos e eles pro sul e eu pro norte (fita).   No km 30 do odômetro, uma família de turistas venezuelanos, eles que passaram por mim antes dando um alô, aproveitando o feriado da semana santa vindo para o sul do País em busca de aventuras ao lado da natureza. Estavam numa cabana de indio fazendo o seu almoço, já eram 12:00 hrs, então eles me chamaram para almoçar com eles.

Haviam muitos adolescentes e logo fizemos amizade (fita) registrando esse encontro, acompanhado com mais 11 picadas do mosquito piun (91 picadas). 

O dia como sempre bem quente, então a rapaziada me levou para tomar banho de cachoeira(foto).

  Na volta registrei a bela imagem de eu andando pela vegetação baixa e também numa cabana de indio abandonada, uma emoção inesquecível. 

A hora do almoço chegou, comemos farofa, arroz, frango, cerveja e um cucus, ao lado da cabana.   O papo estava bom mas a estrada estava me esperando, agradeci muito pelo carinho, nos despedimos dentro da cabana e continuei viagem as 13:20hrs.

 Eles me disseram que havia um pequeno povoado a 5 km e que eu podia comprar água.  Depois de 20 minutos pedalando,    cheguei ao povoado de Salto Kama e comprei dois litros de água, chocolate e pão.  Aqui na Venezuela, principalmente os preços dos alimentos custam até menos da metade em relação ao Brasil e alguns produtos já vem com o preço na embalagem.  Agora em relação a minha comunicação com os venezuelanos não esta sendo difícil, eles são bastante compreensíveis e me ensinam a falar o seu idioma.  Um pouco mais adiante havia mais algumas casas de índios, os chamados índios civilizados, que se comunicam diretamente com o homem branco.  Em fim chegando a San Rafael de Kamoiram, mas fiquei sabendo do acampamento que havia 4 km mais adiante, chamado de Rapto do Kamoiran, com restaurante, lanchonetes e posto de gasolina, mas teria que pagar 500 bolívares para armar minha barraca, então outras pessoas me disseram que um pouco mais atras tem um lugar onde se pode passar a noite as margens do rio sem pagar nada.  Então dei meia volta e logo encontrei o rio a 1 km dali com muitas barracas e muita gente bonita.   É muito lindo esses lugares, repleto de água potável, cachoeiras e montanhas.  Fazia frio naquela noite, então tratei de armar  o meu abrigo logo pela 16 vez e dormir.   Fiz o meu jantar a base de leite, pão, ameixa seca e sardinha em lata.  

Acordei as 06:50 hrs com um inesperado frio, e fui obrigado a botar minha blusa, depois percebi que as pessoas estavam fazendo sua higiene bucal no córrego, então participei daquela cena também.

  Desmontei a barraca e fui até o posto tomar o meu café da manhã.   Comi alguns pastéis, tomei suco e conversei com turistas que compraram  meus adesivos ajudando a pagar o lanche.  O pneu traseiro da bicicleta estava meio vazio, então resolvi encher ali mesmo no posto e tive a agradável surpresa de encontrar aquela família com quem fiz o meu último almoço.  Eles pararam para abastecer e comprar filme para poder me fotografar e assim registrarmos aquele último momento juntos.    Voltando à estrada, o vento que nos dois primeiros dias era contra, passou a estar do meu lado.  No km 29.90, fui parado por venezuelanos em frente ao quartel do exército para me conhecer.   Bateram fotos, me deram um gelado suco de maça e desejaram uma feliz viagem.  Andando mais 4 km almocei num restaurante (foto) no início de uma subida e ali comi e bebi até dizer chega, pois a comida foi bem farta, dois copos de suco de laranja grandes, frango assado, arroz, macarrão, salada e um chocolate que me custaram apenas 1.140 bolívares (U$ 2.50).  

 Logo adiante há um monumento em homenagem ao Soldado Pioneiro.   A 10 km do restaurante entrei num trecho fechado pela mata, sem urbanização nem pontos de parada.  Nesse dia além do vento estar a meu favor, após ter passado pela guarita da Guarda Nacional, encontrei pelo caminho a chamada Sierra de la Virgem com 19 km de puro declive, uma emoção que faz palpitar o coração e relaxante, não é mesmo?   Após da longa descida, tive alguns sobe e desce, porém fáceis de pedalar, e logo encontrei a Piedra de la Virgem (foto), um enorme paredão bem ao lado de uma curva para direita em  declive com cerca de 3 graus.   Então parei, pois havia uma barraca vendendo lembranças e imagem da Santa Virgem, que segundo a história, ela foi vista nesse local a 32 anos atrás por uma mulher (1964), e já morreram mais de 50 caminhoneiros que não conseguiram freiar por causa da curva fechada e bateram  direto contra o paredão de pedra.  A 10 km dali encontrei o município de Las Claritas no km 88 da rodovia e também da bicicleta, que e onde o Parque Nacional de Canaima termina.   Parei e fiz um lanche, comi um pierro caliente (cachorro quente) com água de papelon com limon que tem gosto de caldo de cana.  O final do dia estava por chegar, e resolvi armar minha barraca pela região quando passei pôr uma ponte, então pensei que poderia ficar por ali.  Perguntei a duas senhoras que passavam pela estrada e elas disseram que seria perigoso, pois eu correria o risco de ser assaltado.   Elas me aconselharam a ficar em um hotel próximo dali, então concordei em segui-las.  Encontramos o hotel no chamado centro do município, paguei 1.000 bolívares e as 19:30 hrs eu já estava instalado em meu quarto.   Fui tomar banho e não consegui fechar a porta do banheiro, e para finalizar, chegou um cidadão que ligou o chuveiro ao lado fazendo com que faltasse água no meu, bem naquela hora em que eu estava todo ensaboado.   Como o dia não foi tão cansativo, fui pro bar do hotel ver o que estava acontecendo e tive a oportunidade de ver os venezuelanos dançarem a sua tradição.   Depois daquela cena, me dirigi ao meu quarto e quando deitei na cama, o colchão quase foi parar no chão.   O calor estava presente, mas o ventilador também.

Acordei as 07:00 hrs, fiz o meu lanche e de volta para a estrada.   Era sexta-feira santa e encontrei no ponto de ônibus os dois aventureiros da Suíça que havia encontrado na viagem de ônibus que fiz de Manaus a Boa Vista.   Eles falavam um pouco de espanhol, já estavam a dois meses viajando pelo norte do Brasil vindo para Venezuela e estavam loucos para pegar um ônibus para poder seguir viagem, mas era feriado e o jeito foi tentar uma carona.   Aí eu digo na grande desvantagem em viajar a pé, tendo que depender de transporte, além de ter que carregar toda a bagagem nas costas.  Conversei um pouco com eles e dei um tchau, pois o meu transporte é próprio.   Logo mais, eles passaram por mim de carona na carroceira de uma caminhonete abanando a mão.   No km 36 do odômetro, passei por uma área indígena, com 10  km de extensão, mas não vi ninguém sem roupa, só as crianças.   A hora do almoço estava chegando e não encontrava nenhum restaurante, apenas algumas bodegas vendendo refrigerante e salgadinho.   Já tinha andado mais 70 km e só achei uma bodega na Comunidade de São José, então fui obrigado a comprar quatro garrafinhas de suco de laranja e um saco de batata frita para enganar a barriga (480 bolívares). 

Em fim, cheguei ao km 0, numa cidade de nome El Dorado as 14:30 hrs, onde conheci uma simpática família dona da Licoleria Taguapiri, a qual me convidou gentilmente para comer uma sopa deliciosa de pescado com frutos do mar (fita), o nosso chamado criolo, aqui é tipi-tipi, e o cuscuz, juca.

   Eles também me presentiram com um livro falando sobre seu país e uma bandeira da Venezuela, o nome da responsável se chama dona Gelênia, que me tratou como seu hijo (filho).   Conheci um simpático senhor brasileiro que vive a mais de 25 anos aqui, casado com uma venezuelana, e que me indicou a um outro brasileiro que tem uma fazenda mais adiante para eu poder dormir em sua casa, mas o destino me fez armar a barraca pela 17º vez no km 11 (contagem progressiva) dentro de uma bodega, (Fundo de la Esperança), sendo cedida pela dona e suas filhas que conheci naquela tarde.   Elas simpatizaram comigo, por isso me deixaram passar a noite ali, mas logo tiveram que ir para igreja e fiquei sozinho.   Comi o meu jantar e já peguei no sono.   Acordei como 07:30 hrs  para poder falar com as muchachas (garotas), esperei um pouco mas elas ainda não tinham acordado e tive que ir sem me despedir. 

Agora já mais tranqüilo, estava entrando em zona urbana e assim poder dormir em algum quartel da polícia, porém andei muitos quilômetros sem urbanização.   Encontrei mais um posto da Policia Nacional à 38 km, mas não tive que mostrar o passaporte e nem parar.  O trecho foi  quase sem urbanização, fiz o meu almoço num restaurante dentro de um posto e continuei viagem.   No km 85 do odômetro, o pedal esquerdo começou a afrouxar a rosca e o pior é que eu não tinha a chave para apertar, nisso o meu vizinho do acampamento de Kamoiran passou por mim  parando para me saludar (saldar) me dando duas cervejas, então pedi uma ajuda mas ele não tinha a chave e nem podia me dar uma carona até a cidade.   E agora? O jeito foi ir devagarinho até encontrar alguma ajuda, mas nada encontrei e depois de 10 km cheguei na cidade de El Callao.   Havia algumas muchachas no trevo de acesso à cidade junto com um policial de moto parando os carros para ajudar em uma campanha que no momento não me lembro mais.   Pedi auxilio ao policial e ele teve a gentileza de ir até ao quartel pegar a chave para apertar o pedal e já dizendo ao comandante da minha chegada para  eu poder dormir ali mesmo.   Ele voltou trazendo a chave na qual usei para apertar o pedal e também a confirmação de que eu podia passar a noite no quartel da polícia.   Agradeci muito pelo seu auxilio e me dirigi ao meu destino do dia.   Chegando lá apresentei a minha agenda com os carimbos das polícias do Brasil, do quartel de Santa Elena e tudo deu certo.

Tomei um banho relaxado e os policias muito gentis, me deram um jantar com arroz, frijoles (feijão), pollo (frango), pão e um copo de suco de laranja.   A noite estava quente, mas eles conseguiram um ventilador só pra mim, e dormi no chão da sala do sargento em meu saco de dormir.  No outro dia, comi o meu lanche matinal, peguei o carimbo do quartel, bati uma foto com os policias por volta das 07:00 hrs, agradecendo muito pela generosidade e pé no pedal.  A estrada me recebeu com muitas subidas e descidas, porém com bastante casas e bodegas, não esquecendo que andei nesse dia mais de 120 km.  A 17 km de El Callao, passei por mais uma guarita da Guarda Nacional dentro de uma cidade chamada Guasipaté, e parei para repor um pouco de líquido, tomando cinco copos de suco de laranja e três pastelitos (pastéis) e gastei apenas 740 bolívares.   No km 59.40 almocei num isolado restaurante na casa de uma família que me serviu um Morcoi Guisado com arroz, e eu curioso, perguntei o que era isso, aí ele trouxe uma tartaruga viva mostrando que ela era o Morcoi.   Até que estava gostoso porque eu estava com fome, mas quando vi a tartaruga fui comendo devagarinho sem muito prazer e por cima esse prato me custou 800 bolívares.  

Tratei de sair de fininho  e chegar rápido em Upata, o meu destino do dia, pedalei quase sem parar chegando na área urbana da cidade anunciada por uma placa, e lá fui bem atendido pelos policias, assim como no Brasil.

   Naquela noite assisti uma ocorrência entre dois adolescentes que foram pegos brigando na rua e a situação deles não estava boa, eles queriam até brigar na frente dos policiais e o motivo eu não soube.  Eu tratei de ir dormir numa cama bem macia num quarto com ar condicionado que me cederam e tchau pra eles.   Um dos policiais me pediu emprestado o walkman que a Paula me deu lá no Espírito Santo, não soube dizer não, mas ele me devolveu antes que eu dormisse.  No outro dia, bati uma foto com uma policial e com o resto da turma para registrar aquele momento, e segui viagem.  Daqui por diante eu não tenho maiores detalhes da viagem, nem das fotos e do mapa cicloviário até a cidade de Barcelona onde perdi o meu gravador com a fita.   A história eu conto quando chegar lá.

          Bom pelo que consigo me lembrar, na manhã do dia oito de abril, sai logo temprano (cedo), o dia esteve azul e a estrada sem montanhas nem subidas e descidas. A estrada me presenteou com uma paisagem repleta de pés de caju, e naturalmente me esbaldei de tanto comer.  

Mais adiante, andando e olhando para o céu, registrei uma imagem muito bonita do sol entre as nuvens, isso é o que eu chamo de uma foto do sol a olho nu.   Essa foto merece ser vista várias vezes em todas os ângulos, os raios eram como uma cortina branca transmitindo paz e energia.

 A hora do almoço estava chegando e estava na cidade  de San  Felix.  Parei para comprar alguns envelopes numa papelaria e dois jovens me questionaram sobre de onde eu estava vindo e para onde estava indo, ai eu disse, do Brasil e vou para os Estados Unidos.   No mesmo instante a moça disse:  Hum! No te creo.  E saíram sem deixar eu explicar o que estava acontecendo.  

Mais uma vez passei por mentiroso.   Peguei minha bicicleta e de volta a realidade.   Ainda em San Felix, um outro jovem me parou perguntando sobre o que estava acontecendo, disse a ele a verdade, e ele, que também é um apaixonado por bicicleta me saludou (parabenizou) convidando para ir almoçar em sua casa.  Vi que ele estava sendo gentil e aceitei o convite.   Passamos pelo centro comercial da cidade até chegarmos em seu apartamento.   

Fui muito bem recebido por seus pais que me prepararam um farto almoço.   Logo chegou sua namorada, uma venezuelana muito bonita, para completar o quadro. Foram momentos de pura descontração, eles tiveram a honra de ter recebido um ciclista que está cruzando as Américas.

     Depois do almoço, o rapaz pediu que eu arrumasse o cãmbio de sua bicicleta, e com um pouquinho de sorte dei conta de fazer a regulagem.   O papo estava ótimo mas era hora de ir.    Registramos o nosso encontro e o rapaz me acompanhou com sua bicicleta até a saída da cidade.   Agradeci muito pela gentileza de sua família e pedalei até o km 50 onde armei minha barraca na polícia rodoviária pela 18º vez.   Pedalei nesse dia 122 km em sete horas.

Na manhã do dia 09 como já estava previsto, eu não iria pedalar até uma cidade para poder repousar na polícia e assim tomar um banho, pois estava muito quente.  Então cheguei na cidade de Bolivar  bem na hora do almoço e fui procurar um quartel da polícia militar para  pedir a eles que me deixasse tomar um banho.

      

 Os policiais foram bastante gentis comigo autorizando a me banhar e ficaram impressionados com a minha coragem em viajar para os Estados Unidos.   Deixei a bicicleta embaixo de uma escada e quando voltei do banheiro havia muitos policiais em volta dela impressionados com os equipamentos que levava, perguntando coisas sobre a viagem e depois disso eles me convidaram para almoçar.   Eu aceitei com o maior prazer, é claro.  Então eles me levaram ao refeitório, e o engraçado é que veio um cozinheiro me trazer o almoço e no mesmo instante veio um policial me trazendo outro almoço.   Aí me vi diante de duas refeições, e o policial me perguntou se eu queria comer os dois.  Adivinhem o que eu disse a ele? Isso mesmo, passe pra cá que eu como os dois.   Agradeci muito pelo apoio aos mesmos e dali segui viagem.

Depois desta cena pedalei rapidinho pra chegar ao posto de gasolina onde armei minha barraca pela 19º vez.  Comprei o meu lanche noturno ali mesmo e tratei de dormir.   Havia uns venezuelanos por ali me rodeando e perguntando sobre a viagem.   Até fiquei com medo deles quererem me assaltar naquela noite, mas graças a Deus, a noite foi silenciosa, a não ser o som de algumas galinhas que andavam saçaricando.    Pedalei nesse dia um total de 124 km em sete horas e meia.    

No dia 10, desarmei a barraca, fiz o meu café da manha no posto junto aos caminhoneiros e pé no pedal rumo ao norte.  Encontrei uma placa de distãncia  indicando o meu trajeto do dia.  Pretendia parar na cidade de El Tigre no quartel da polícia para ver se descolava um almoço. 

 Cheguei na cidade as 12:45 hrs e as duas únicas coisas que consegui, foi passar um pouco de raiva pela má vontade dos policiais em me atender e o carimbo da companhia registrando a minha passagem pela cidade, mas comida que é bom, nada.    Quando ia saindo, fui parado por um jornalista que pediu uma entrevista para o seu jornal.   O jeito foi procurar um restaurante para matar a fome.  Nesse restaurante, encontrei um brasileiro que mora a muito tempo no país e que não pensa em voltar para a pátria amada.  Não me lembro ao certo o que ele fazia, só lembro que ele teve a gentileza de me pagar o almoço.   Agradeci muito e isso valeu para amenizar o fora que ganhei dos policiais de El Tigre.   Comi bastante e ainda comprei em uma padaria, leite em pó, pão e muito líquido.   Dali pedalei até a cidade de Anaco e consegui o apoio da polícia deixando que dormisse no quartel.  Antes de chegar, registrei um placa dando a indicação da mesma, e eu estava dançando um vanerão rasgado para espantar os males.   Dormi no dormitório dos soldados, junto a cadeia onde se encontravam os fora da lei.  No dia 11 fiz o oficial registro de imagem dos policiais na frente do quartel, e eu estava louco para conhecer a cidade de Barcelona, que lembra muito as últimas Olimpíadas em 92.   Logo que encontrei uma placa de quilometragem, bati uma foto e almocei na cidade de San Mateo mas dessa vez não perdi tempo em procurar o quartel para ganhar um almoço, comi num posto de gasolina na estrada.  

A 35 km de Barcelona, fotografei a placa de distãncia onde aparece Caracas.   Cheguei na cidade por volta das 16:00 hrs, então resolvi procurar uma sapataria para consertar o meu tênis e o destino me pregou uma perda de mais um gravador.

  Estava esperando pelo conserto e senti um encomodo na cadeira, era o gravador, então tirei do bolso e coloquei em cima da outra cadeira a meu lado enquanto lia uma revista.    O tênis ficou pronto e  me levantei para ver, o sapateiro ainda não me cobrou pelo serviço.   Fiquei muito contente e saí rapidinho para encontrar um quartel da polícia, mas no meio do caminho percebi que tinha esquecido o gravador na sapataria, levei um susto mas não me importei muito pois tinha esperança de que os sapateiros tivessem guardado para mim e também já passava das seis da tarde e os mesmos já deviam ter ido embora.    Andando por uma avenida pedi informação de onde encontraria o quartel de polícia e logo encontrei a rua onde tinha um capitão de polícia sentado num muro, então parei para falar com ele e pedir seu auxilio.   Disse a ele que queria dormir e ele me indicou o hotel mais próximo, mas expliquei que estava viajando e se podia passar a noite no quartel.  O capitão disse que a coisa mais difícil era dormir em um quartel de polícia.   Nesse momento percebi o seu receio sobre minha pessoa, mas eu tinha uma arma em minhas mãos, a agenda com os carimbos das polícias por onde passei e a carta de recomendação de seu Tenente Coronel Hilário.   Ai ele ficou sabendo melhor com quem estava falando e me indicou onde era o quartel e com quem devia falar para que me autorizasse a ficar ali.    Cheguei no portão do mesmo, falei com os policiais e foi mais fácil que andar para frente.   Me encaminharam até a uma sala onde havia um tenente conversando com um civil e pediu para eu esperar ele me atender.  Foram longos 40 minutos e eu louco para dormir.   Quando ele me atendeu, ficou me perguntando sobre a viagem, sobre a minha vida, quiz ler a minha carta da polícia, ver o meu passaporte e como não bastasse, ele me obrigou a mostrar toda minha bagagem.    A minha vontade naquela hora foi ir embora dali e armar minha barraca em algum lugar.   Pra finalizar o dia, ele me colocou dormir no banheiro das mulheres e fechou a porta, e o jeito foi botar o meu saco de dormir no chão para passar a noite ali, não sabia se ria ou se chorava de raiva.   Pela manhã bem cedo, 06:00 hrs, o mesmo tenente veio me dar um bom dia dizendo que eu tinha 30 minutos para sair antes que o comandante chegasse.   Sem direito a café da manhã, aproveitei esse tempo para lavar a minha roupa na pia do banheiro dos homens, pois já havia deixado de molho durante a noite.  Não demorou muito, o comandante chegou no banheiro e me pegou lavando a cueca, perguntando o que eu estava fazendo no quartel, então contei a  situação, mas ele não quiz saber de conversa, ordenou que eu parasse de lavar a roupa e fosse embora.  Fui pegando minhas coisas devarinho e no que ele deu as costas, terminei rapidinho de lavar a roupa.  

Peguei o carimbo da companhia de polícia e tratei de ir até a sapataria para encontrar o meu gravador.  Chegando lá tive que esperar quase uma hora até abrir, e tive duas más surpresas, primeiro os sapateiros que vieram pela manhã, não foram os mesmos de ontem a tarde, segundo eles não sabiam do gravador nem o encontraram.   E agora o que eu faço?  Resolvi esperar até que os sapateiros que me atenderam naquele dia 11 de abril chegassem.    O dia foi péssimo, não tive motivação para conversar com ninguém, não bati foto de nada e ainda quando fui almoçar, o restaurante era um dos mais caros e a comida foi pouca pelo preço.  Depois do almoço encontrei uma sorveteria de um simpático venezuelano que é apaixonado pelo Brasil e que teve o seu primeiro filho nascido recentemente e colocou o seu nome de Romáriobebeto, em grande homenagem a dupla de atacantes de nossa Seleção de futebol que nos deu o Tetra em 94.   Contei sobre o gravador, e ele já conhecia os dois da sapataria, disse que são Turcos e que podiam estar mentindo sobre desaparecimento do mesmo e que ninguém na cidade gosta deles.  Depois disso voltei a sapataria e lá estavam eles.   Perguntei educadamente se eles haviam visto o meu gravador que possivelmente deixei por ali em cima da cadeira.   Eles me responderam que não, mas falei detalhes da cena de ontem, que quando fui pegar o tênis, esqueci em cima da cadeira.   Por causa disso eles se sentiram ofendidos pensando que eu estivesse acusando-os de ter pego o gravador e não me deram mais atenção.   Depois de tudo isso senti na pele mais uma perda de gravador e dessa vez fez um buraco grande.   Com isso aprendi uma coisa: “Nunca deixe nada em cima de nada” pois um dia você poderá esquecer a sua chave do carro, da casa, do trabalho, ou qualquer objeto que esteja carregando na mão, em cima de algum balcão de comércio, em cima do telefone público, no chão, no banco da praça, etc e você poderá ter uma perda irreparável.   A sorte que eu tinha outro gravador comigo.  Pensei em continuar viagem naquele meio de tarde, mas não vi sucesso.   Decidi passar mais uma noite na cidade e aproveitei para colocar a roupa que tinha lavado na polícia pra secar na grama de uma praça onde assisti a um concurso de tiro ao alvo ou coisa parecida fazendo a divulgação do lançamento de uma marca de cigarros.   Muita gente bonita, mas a atração do festival não fazia bem pra saúde nem pro bolso. 

          Andando pela cidade, encontrei um conserto de rádio e televisão, aproveitei para dar uma manutenção no walkman que faltava um tornillo (parafuso) no cabeçote.   O senhor da eletrônica foi simpático e não me cobrou pelo serviço, então aproveitei e pedi informação a ele sobre onde eu podia achar um hotel barato para dormir, pois eu não tinha mais moral para voltar até a mesma polícia onde passei a última noite.   Fui na indicação dele mas o hotel estava lotado porque custava apenas 1.000 bolívares e tive que ir a procura de outros hotéis.  Encontrei alguns, mas o preço passava dos 2.000 bolívares e tentei ir em busca de outros.   Conheci um menino que andava de bicicleta e ele me levou até a uma casa de uns simpáticos senhores que se encontravam tomando cerveja na porta, então perguntei a eles onde podia encontrar um hotel e eles ensinaram o menino que me levou em dois hotéis de 1.500 bolívares mas estavam lotados.  Voltamos até a casa dos senhores e conversando, me convidaram para dormir em sua casa, aceitei na mesma hora, mas algo estranho começou a acontecer.   Primeiro eles me pediram 500 bolívares para comprar uma garrafa de tequila (cachaça)e como não tinha trocado dei uma nota de 1.000 e nisso percebi que eles estavam meio bêbados.   Um rapaz foi comprar a tequila, o senhor me disse que devolveria o troco e quando ia tomar banho um outro rapaz que não me foi apresentado, começou a mexer na bicicleta, ai percebi que estava entrando numa fria.   Nisso chegou a esposa de um deles, e quando me viu, começou a discutir dizendo que não me queria ali e que eu fosse embora.   O marido ainda tentou convencê-la mas nada feito.  Quando eu ia saindo da casa, o rapaz chegou com duas garrafas de tequila e os meus 500 bolívares de troco foi pro beleleu.   O engraçado foi que quando a senhora soube que foi eu que comprei a cachaça, tentou me convencer a passar a noite ali.  Nessa altura do campeonato o que eu mais queria é reaver o meu troco e sumir dali, cheguei a discutir com o rapaz que comprou a tequila e ele me ameaçou de agressão.  Percebi que naquele dia o vento estava soprando contra e com areia na cara.   Então tratei de dar no pé logo antes que o circo pegasse fogo e eu virasse churrasquinho pra comer com a tequila comprada com o meu dinheiro.    Já estava bem tarde e a esperança de encontrar algum hotel com vagas estava pouca.   Parei no penúltimo hotel e o guarda foi verificar se havia vaga, e nisso pra completar a noite parou um bêbado perto de mim e começou a me encher a paciência com suas palavras que eu não entendia, só ficou gravado na minha cabeça ele me dizer:  ‘escuichta, escuichta, escuuuuuichta..... ‘ 

O guarda demorou quase 15 minutos pra me dizer que não havia lugar.   Com essa foi o fim da picada e fui obrigado a pagar 5.000 bolívares para passar a noite num hotel 3 estrelas sem direito a café da manha, pois a cozinha estava em reforma.  Esse dia 11 de abril de 1996 foi marcado como o pior dia de toda viagem e tive três perdas, prejuízo financeiro, desgaste mental e social.  

               Acordei às 07:00 hrs, e o que eu mais queria era esquecer o dia de ontem e fiquei como um louco querendo sumir dessa cidade.  Ainda me perdi um pouco mas logo achei a saída rumo ao norte.  Encontrei na estrada sete ciclistas da terceira idade andando a 30 km/h todos juntos, me acenaram e sumiram no infinito da estrada.   Pensei comigo, já que perdi um dia, e para chegar em Caracas eu levaria três dias, tenho que tentar percorrer os mais de 300 km que ainda faltam em dois dias.   Por isso não me preocupei em parar muito para não perder tempo.   O dia não foi tão difícil, o percurso era plano por isso parei menos e andava mais.  Aos 28 km encontrei uma estação de gás ou coisa parecida onde os navios atracavam.  E no km 59 do odômetro, não pude deixar de fotografar uma arvore sem folhas mas com frutos na beira da estrada, mais parecia o nosso pé de jabuticaba no Brasil, mas não quiz provar daquele fruto.   A paisagem foi litorânea com muitos pontos turísticos até eu chegar na minha parada para repouso no município de Cúpira às 17:55 hrs após ter pedalado 148 km.   Entrei para achar o quartel da polícia e ao contrário de Barcelona, os policias ficaram honrados em me conhecer me servindo um belo jantar. Nada como um dia depois do outro.  Como não havia vaga nos dormitórios, me colocaram no escritório do sargento com direito a colchão e ventilador.  O meu banho foi um balde de água com uma caneca pois não havia água nos chuveiros nem portas nos banheiros e as mulheres policiais passavam por ali sem se importarem muito.  

Acordei às 06:30 hrs, agradeci muito pelo apoio deles, peguei o carimbo do quartel e rumo a Caracas.    

A 55 km de Cúpira, encontrei a placa de Caracas 101 km (foto) às 10:00 hrs.   Só fui almoçar num posto onde havia um restaurante a 94 km de Cúpira. 

E a parti dali começaram trechos de subidas, mas a sorte foi que eu encontrei uma fonte de carbohidrato no km 113, uma barraca de caldo de cana (foto) servida por uma senhora com seu filho.    

Já no km 120 passei pelo primeiro túnel na rota da viagem (foto), muito escuro e sem luzes, porém passei sem problemas os quase 1 km de extensão passando por baixo de uma montanha.

O dia estava por escurecer, já tinha pedalado mais de 154 km  e ainda faltavam 13 km de pura subida para chegar em Caracas, quando parou uns jovens numa caminhonete antes de eu passar pelo segundo túnel, e ofereceram carona, mas ainda recusei pois falharia com o mapa cicloviário.

   Só que eles disseram que eu podia falhar com a viagem por ali mesmo, porque estava chegando próximo as favelas e poderia ter grandes chances de ser assaltado.   Percebi que eles queriam me ajudar na realidade e aceitei a carona, colocamos a bicicleta em cima da caminhonete e eles me deixaram cerca (perto) da polícia de Chacao, a mais bem equipada da Venezuela.  A noite caiu e me dirigi até a Praça da Altamira onde se encontrava o quartel da policia a três pisos abaixo do solo.  Tive a sorte de ser bem recebido por eles e sem cerimonia, me levaram para o dormitório.   O pesadelo foi no banheiro, dos três chuveiros apenas um funcionava, e a fila não era das mais atraentes.  A hora do pesadelo 2 foi no vaso sanitário que também só tinha um e além disso, as paredes que separam o lugar privado do público era alto demais e quase se podia ver as nádegas do sujeito sentado no vaso.  Que situação!  Depois daquelas cenas voltei ao dormitório e tratei de descansar escrevendo o resumo da viagem para mandar ao Brasil via fax.   Pedalei até aqui 7.771,8 km em 594 horas 07 minutos e 35 segundos.   Tomei 305 litros de água e gastei R$1.457,47.

No dia 15 fui para a Embaixada do Panamá para pegar o visto, então tomei um ônibus em frente a Praça.  Chegando lá fiquei sabendo que nós brasileiros temos passagem livre sem precisar de visto assim como os panamenos para com o Brasil.  De tarde fui procurar a Embaixada do Brasil para fazer uma procuração para minha irmã em relação a herança deixada por minha mãe para mim e depois trocaria os meus 280 mil bolívares por dólares, mas a Venezuela estava passando por algumas mudanças como por exemplo o aumento de 500% no preço da gasolina e ninguém podia comprar dólar.   A minha sorte é que no dia seguinte encontrei uma pessoa indicada pela Embaixada do Brasil que me vendeu 452 dólares pelos meus 280 mil bolívares, mas perdi 30 dólares na troca do dinheiro. Tudo bem ainda tive a sorte de conseguir trocar.  Apenas deixei alguns bolívares para eu comer uns deliciosos cachorros quentes preparados por um senhor na Praça Altamira durante a noite, ele havia muitos fregueses de todas as classes sociais e dava gosto de vê-lo fazer sem descansar pois não parava de chegar gente para comprar.   Fiquei três noites e dois dias em Caracas e ganhei dos policiais de Chacao dois chaveiros da Companhia e uma caneta.  Além de um deles que me levou no cambarão da policia para eu ver o treinamento dos cães policias, muitos simpáticos por sinal.

 

DE CARACAS ATÉ PANAMÁ: Para ir para o Panamá, teria que ir até o aeroporto na cidade de La Guaira a 40 km de Caracas, então programei acordar às 06:00 hrs do dia 17 para poder dar tempo de pegar o único vôo diário às 10:45 hrs.  

Pela manhã, a porta do dormitório estava trancada e eu estava sozinho e só consegui sair às 06:50 hrs.  Não me preocupei muito pois teria pela frente mais de 30 km de descida até La Guiaira, mas o que eu mais temia aconteceu, antes de conseguir sair da capital venezuelana o pneu traseiro da bicicleta furou, e como poderia perder muito tempo para fazer a troca, fui obrigado a pagar 10 dólares para um taxista me levar até ao aeroporto.

     No caminho nós ouvíamos uma rádio com um concurso interessante e o radialista pergunta ao ouvinte para ele escolher as questões:  O que? Qual? Quem? Onde? ou Quando? Se acertasse a resposta ganharia prêmios como camisetas ou ingressos para algum programa noturno.   Chegando no aeroporto, tiramos a bicicleta do porta malas mas esqueci a minha famosa buzina e lá se foi ela com ele.   Entrei no aeroporto com a bicicleta toda montada as pessoas ficavam me olhando.  Quando fui comprar a passagem e a moça quiz que eu comprasse também a passagem de retorno, mas expliquei a ela que eu não voltaria e que continuaria a viagem de bicicleta até os Estados Unidos.  Ela ainda ficou sem entender e não queria me vender a passagem até que eu explicasse com mais calma a situação.   Paguei 282 dólares pela passagem, 5 dólares pela tarjeta de turismo e 4 pela taxa de embarque.   A fome se fez presente e troquei os meus últimos bolívares por cinco dólares para eu poder fazer um lanche.   Na entrada para o embarque, o policial revistou minha pochete, desconfiou de minha câmara fotográfica e teve que bater uma foto minha para ter certeza se não havia droga.  O avião decolou às 10:55 hrs e posou na cidade do Panamá às12:48 hrs mas fiquei sabendo que aqui é uma hora a menos então passou para 11:48 hrs e estou a duas horas a memnos em relação ao horário de Brasília.

 

DE PANAMA ATÉ SAN JOSÉ (Costa Rica):  Bom, agora chega de muitos detalhes e vamos direto ao assunto, pois agora mais detalhaes da viagem só no livro.   Logo que desembarquei, enchi os pneus da bicicleta e tratei de procurar os consulados da Costa Rica e Nicarágua para pegar o vistos para entrar nesses países.  Quando lá cheguei, ambos já estavam feichados e resolvi jogar uma partida de tênis em clube que havia visto na estrada.   Depois de perder a partida de tênis, fui procurar um quartel da polícia para passar a noite.  

Encontrei o quartel da polícia de San Felipe na cidade velha de Panamá e fui recebido no lado de fora por um tenente que me disse que primeiro não havia lugar e segundo não é permitida o alojamento de estrageiros no quartel.  Fiquei triste com o fato e fui saindo devagarzinho sem saber pra onde ir.

   Mas Deus sempre pôe seu anjo pra nos proteger e antes que chegasse no outro lado da rua, fui parado pelo capitão do quartel me perguntando o que eu estava fazendo.   Expliquei minha situação e disse a ele que vinha pedindo auxílio junto a polícia em releção a alojamento e então o capitão me ofereceu alojamento no mesmo quartel onde o tenente havia me negado.    Ele mandou eu subir as escadas com a bicicleta até ao escritório do quartel e chamou aquele mesmo tenente ordenando a ele que me alojasse junto ao quarto dos oficiais e que servissem um jantar.  Antes do capitão sair, perguntei a ele se poderia ficar aqui mais uma noite se precisasse e ele me autorizou sem problemas e também escreveu em minha agenda, um pedido de auxílio aos demais quarteis por onde iria passar.   No dia 18 de abril, quinta-feira, deixei minha bagagem no quartel e fui na Embaixada da Costa Rica e Nicarágua onde paguei $45 dólares pelos dois vistos.   Aqui no Panamá, a moeda é o Balboa que foi taxada de igual valor ao dólar desde 1903, mas não vi nehuma moeda de Balboa,  pois em 1941 o dinheiro panamenho parou de ser fabricado e usei meus dólares para fazer compras.   De volta ao quartel, aventurei-me em um passeio de ônibus pela cidade.  

Passaporte carimbado para os próximos dois países a cruzar, me despedi do gentil Capitão e também do Tenente agradecendo muito pelo apoio.   Mas antes eles chamaram o Jornal Reuters para eu dar uma entrevista e assim divulgar a viagem bem como os meus patrocinadores.  

Logo após, era hora de continuar viagem indo cruzar a ponte que passa sobre o canal do Panamá e enfrentar a rodovia Panamericana que me levaria até aos Estados Unidos.  A má notícia foi que percebi no agitar da bicicleta, que a rodovia era sem acostamento e feita de blocos de cimento em desnível. 

 O vento era contra e o trecho montanhoso, mas faz parte da aventura.   De acordo com o dia 111º do meu projeto, eu dormiria na cidade de Penonome e após pedalados 88 km, aí cheguei nessa cidade.   Encontrei o Posto Policial e gentilmente após ter mostrado minha agenda com o carimbo do quartel da capital, eles me cederam um lugar pra eu dormir.

No dia seguinte foram 76 km de sobe e desce até Chame onde também consegui apoio na polícia.

Esse dia 21 de abril também foi difícil pedalar, muito vento contra já pela manha foi recheado com muitas subidas.   E para ajudar furou o pneu traseiro aos 24 km de pedalada, foi um pesadelo ter que desmontar toda bagagem e eu não tinha mais câmaras reservas.   O dia estava quente,  a água estava pouca e uma das raras vezes, depois do almoço, cheguei a parar no meio de uma subida nada simpática para dormir uns longos 40 minutos embaixo de uma sombra.   Mais uma vez para o meu desanimo, furou novamente o pneu no km 62.20 do odômetro, e por não ter câmara reserva tive que fazer o conserto na hora, e adivinhe qual foi?    Depois de cinco quilômetros parei num posto e consertei cinco furos nas três câmaras reservas e comprei um pouco de gelo para por no reservatório de água.  

Dois quilômetros depois, num cruzamento em bifurcação, um policial me chamou do outro lado da estrada para falar comigo, mas eu pensei que ele queria apenas me cumprimentar, e ele foi logo me perguntando onde está a placa da bicicleta.

   Fiquei um pouco assustado respondendo a ele: Que placa?   Então ele disse que aqui no Panamá as bicicletas são consideradas como um veículo de transporte, e que é preciso documentos, placa e tudo mais.   No mesmo instante olhei a meu redor para ver se via alguma bicicleta com placa e logo vi duas com placa igual as de moto.  Respondi a ele que eu estava atravessando pelo país para chegar até a Costa Rica e assim seguindo viagem aos Estados Unidos.   Mas ele não quiz saber de conversa, disse que teria que prender a minha bicicleta até eu fazer a placa que demoraria três dias.   Aí pensei comigo: Eu tô frito...   Tentei mostrar a agenda com o carimbo da polícia da capital, as cartas de recomendação e também disse que na cidade do Panamá eles não me falaram nada a respeito disso.  Então logo o policial me disse que a polícia da capital não cumpre com as leis.    Só que depois de tudo isso com a minha humildade e simplicidade consegui convence-lo de me deixar seguir viagem sem problemas.  Quando consegui me livrar daquela situação, senti-me como um passarinho que escapou da gaiola; que alívio.   Nesse dia pedalei 102 km e cheguei até a cidade de Santiago onde também fui atendido pelos policiais.   Já no dia 22 foi um pouco mais tranquilo a após 122 km pedalados em 9 horas e 23 minutos, cheguei na cidade de San Felix no quartel da polícia.   Daqui restavam 130 km até a fronteira, mas resolvi parar 30 km antes e dormir no posto policial de Bugaba no município de Concepcion.  Aqui tive que mostrar 80% de minha bagagem aos desconfiados policiais mas tudo bem.   Pela manhã saí bem cedo e logo um ciclista panamenho me acompanhou por mais de 20 km até chegarmos na fronteira com a Costa Rica por volta das 08:00 hrs.  Carimbei a minha saída do Panamá e tive que esperar por mais uma hora a fronteira da Costa Rica abrir pois ali era uma hora a menos em releção ao Panamá.  

Naquela ocasião, encontrei um casal de ciclistas da Suíça que estavam pedalando desde o Alaska e terminariam sua viagem na Argentina.  Eles já estavam na estarada a 6 meses e tinham pedalados até ali mais de 13 mil km e eu tinha registrado pouco mais de 8 mil km.

  Após ter carimbado minha entrada na Costa Rica, troquei alguns dólares por Colones, moeda local, a 1 por 201.   Na sequencia, Kelly foi a primeira cidade por onde passei a 16 km da fronteira, e ali tomei informaçöes que valeria a pena eu desviar da estrada panamericana e ir cortar caminho atrevessando a Serra da Morte com 3.491m de altitude. 

Mesmo com o joelho doendo naquele dia 24 de abril, eu comecei a subir a serra, deixando Kelly para tráz ou melhor, para baixo.   Mas logo de início, dois senhores numa caminhonete pararam e insistiram em me dar uma carona de 17 km até o município de Águas Brandas.  

 Eu olhei pra tráz e olhei pra frente e não vi ninguém, então embarquei com a bicicleta na carroceria da caminhonete e fui.  Em Águas Brandas, me despedi dos simpáticos senhores e a garotada já vieram me dar as boas vindas junto com os cachorros.  Dali pedalei até Paso Real onde encontrei somente 10 casas e um campo de futebol.   Tomei informações se poderia armar minha barraca pela vigésima vez ali mesmo no campo de futebol e aqui passei a noite.  No dia seguinte, a serra estava cada vez mais presente, porém fiquei sabendo que ainda não estava no pé da serra e pedalei nesse dia 90 km até chegar na cidade de San Sidro ao início da serra de fato.   Aqui armei minha barraca pela 21º vez no pátio da polícia rural que também carimbou minha agenda, registrando minha passagem por ali.   Perguntei aos policiais quanto faltava até ao topo da serra, e eles me disseram que somente eram 48 km, mas eram longos 48 km e que eu não chegaria lá num só dia.  A Serra da Morte estava me esperando, mas eu estava determinado ao subir sem aceitar carona.  Por volta de meio dia, tinha pedalado apenas 15 km e parei num restaurante e ali almocei.   Dali por diante, tive que pôr minha blusa devido ao frio e comecei a pegar muitos nevoeiros.   Tive dois furos de pneu e temia que a pressão do ar tivesse influindo nisso.  

Já passavam das 18:00 hrs, 29 km pedalados e fui arbodado por um senhor que me convidou a passar a noite em sua casa na comunidade de Division a 2.000 m de altitude.   Fui recebido por toda família que me ofereceram também um jantar e ali passei a noite.  

 

Dia 27 de abril foi o dia que pedalei mais alto, e após 19 km cheguei ao topo da serra e almocei num restaurante que tinha por ali.   Bom, agora era a minha vez de descer e pernas pra quem te quero meu amigo.  A neblina era forte e uma chuva fina caia.  Tive mais 3 furos de pneu e o meu estoque de remendos tinha acabado, e agora?   Toda aquela serra pra eu descer e eu sem cãmara e sem pneu.   Tinha descido apenas 5 km e o jeito foi apelar por uma carona e um simpático senhor parou e me levou 26 km até a próxima cidade que se chama El Empalme.   Lá comprei mais remendo e mais um pneu de reserva.   Estava um pouco molhado da chuva que peguei, mas a única ajuda que consegui foi armar minha barraca pela 22º vez no pátio da polícia rural sem direito a tomar banho.   Foi a pior noite da viagem, fazia frio, minha roupa estava toda mohada e não consegui dormir. 

Dali eram mais 26 km até chegar na capital San José onde consegui alojamento na Cruz Vermelha por três noites.  Em dois dias, resolvi algumas problemas na bicicleta, nas mochilas e carimbei o passaporte para a Nicarágua, Honduras e El Salvador.

 

No dia 1º de maio, quarta-feira, agradeci muito aqueles oficiais da Cruz Vermelha por ter me alojado e foram 87 km até chegar em Esparza onde também fiquei alojado na Cruz Roja (Cruz Vermelha).

 

 

 

DE SAN ROSÉ ATÉ MANÁGUA: Já no dia seguinte, logo cedo pela manhã, encontrei mais um ciclista aventurando pelas américas.   Ele era da Suíça, tinha 27 anos e era engenheiro naval.  Desembarcou na Guatemala e pretendia pedalar até a Bolívia só pra curtir a natureza.  Cheguei na cidade de Bagaces por voltas das 17:00 hrs e acabei participando de uma instrução de primeiros socorros na Cruz Vermelhas onde me alojei.  Daqui foram 106 km até a fronteira com a Nicarágua e armei minha barraca pela 22º vez no lado de Costa Rica.   Pela manhã, carimbei meu passaporte para entrar na Nicarágua, apos enfrentar mais de 5 filas para pagar taxas de imigração.  

Mas antes conheci em mineiro que havia comprado sua moto nos Estados Unidos e estava indo até a Argentina e depois para sua terra natal, Belo Horizonte.  

 

Ainda na fronteira do lado Nicaraguense, encntrei mais um casal de ciclistas que estavam indo desde a Califórnia para o Equador.    Eles eram americanos, ele tinha 56 anos e sua esposa 27 anos e pedalavam cerca de 100 km por dia. 

  Bom, aqui na Nicarágua tive que fazer um certificado de veículo para minha bicicleta, exigido pela polícia por que eu não estava usando placa. 

Já passavam das 14:30 hrs quando consegui sair da fronteira, pedalei apenas 40 km até chegar em Rivas e consegui também alojamento na Cruz Vermelha. 

No outro dia, foram 109 km pedalados em 8 horas e 37 minutos para chegar na capital Manágua e aqui também consegui apoio na Cruz Vermelha.

Até aqui pedalei um total de 9.138 km em 613 horas e 33 minutos, bebi cerca de 372 litros de água gastei $2,249.63 dólares.  Na Nicarágua a moeda é o Córdoba e um dólar vale 8 Córdobas.

 

DE MANÁGUA ATÉ SAN SALVADOR:  Após ter resolvido alguns assumtos de correio pela parte da manhã em Manágua, segui viagem. 

Pedalei 50 km para almoçar no município de La Paz Centro e já eram 17:00 hrs.   Analizando o mapa, resolvi procurar um alojamento por ali mesmo e consegui junto ao jovem grupamento de socorristas da Cruz Vermelha dessa cidade.  

 Foi uma noite muito agradável na companhias daqueles jovens que me receberam com muito carinho. Tinha deixado minha roupa de molho naquela noite e pela manhã tratei de lavar a roupa suja e seguir viagem após me despedir daqueles jovens socorristas.   Parei para almoçar na cidade histórica de Lion, conheci duas simpáticas garotas estudantes de farmácia que me ajudaram a mandar algumas correspondências para o Brasil.   Na continuação, vejam só: estava eu quase chegando em Chinandega, cidade onde pretendia passar a noite, e fui surpreendido por uma blitz da polícia para prender bicicletas sem placas e sem documentos em plena rodovia panamericana.   O policial ordenou que eu parasse e quando viu minha bicicleta sem placas, já foi botando a mão para pôr no caminhão com as demais bicicletas apreendidas.   Porém mostrei a ele meu passaporte e o certificado de veículo que tinha feito na fronteira e ele me libeirou.   Fui saindo de fininho e logo ancontrei a Cruz Vermelha onde passei a noite ali.   Chegando perto da linea (fronteira) como dizem os latinos, parei num município e almocei num restaurante não muito chique mas o atendimento foi de primeira e com raleção a comida, deu saudade do Brasil.  

Fiz amizade com o garçom que me acompanhou com sua bicicleta até uma telefônica para eu dar um alô para o Brasil, pois a partir de Honduras eu não tinha mais como fazer ligação a cobrar para o Brasil pois não havia código de chamada a cobrar.

  Liguei para a secretaria de turismo de Itajaí e  liguei para minha cunhada Soráia que se preocupa muito comigo e sempre pede para eu ligar mandando noticias.   Liguei avisando que iria passar algum tempo sem ligar mas se acontece algo de ruim eu escreveria  e qualquer outra informação que ela ligasse para a secretaria de turismo e falasse com o Sr. Acyr para quem eu mando a cada dez dias o resumo dos acontecimentos.    Na volta ao restaurante que fica na estrada pan americana o pneu da bicicleta do garçom furou e continuamos a pé.   Chegando no restaurante, batemos uma foto e segui viagem. 

De Chinandega são 85 km até a fronteira com Honduras, onde sem problemas fiz a travessia.   Não havia nehuma cidade por perto, apenas algumas casas isoladas e depois de 10 km pedalados, formou aquela famosa trovuada de final de tarde.  Continuei pedalando até encontrar uma pequena casa que vendia refrigerantes e salgadinhos e ali parei para esperar a chuva que não caiu.   O dia escureceu rápido, mas rapindinho juntou umas sete crianças me enchendo de perguntas e logo fiz amizade com o resto da família também.   

Graças a Deus, eles me ofereceram abrigo em sua casa e também me serviram uma sopa que a vovó tinha feito pro jantar.   Fiquei muito imprecionado com o carinho daquela humilde família de sobrenome Jocoran e percebi que eles não possuiam água encanada nem energia elétrica.

    Não tomei banho naquela noite e eles me cederam uma parte da casa pra eu passar a noite tranquila.   Pela manhã, saí bem cedo ao me despedir daquela família e de volta pra estrada.  Depois de treze quilômetros parei  numa bodega e tomei um coco verde gelado por apenas duas Lempiras (moeda de Honduras) que custou menos de 50 centavos de dólar.  Almocei na cidade de Choluteca num pequeno restaurante que me serviu uma deliciosa sopa de mocotó.

   Quando ia saindo, encontrei mais dois ciclistas como eu pedalando por aí.  Um japonês de 27 anos, que começou sua aventura no Canadá e estava percorrendo as américas finalizando sua viagem até chegar na cidade de Terra do Fogo, na Argentina. 

  O outro era Romeno de 38 anos, divorciado e já estava na estrada a mais de um ano.   Pedalou um pouco pela Europa e agora estava indo até o Equador e de lá toma um avião para Austrália onde pretente terminar sua viagem.  Eles se encontraram em El Salvador e desde então estavam pedalando juntos rumo ao sul.  Tem muito doido por aí gente. Dali pedalei até Nacaome onde pretendia passar a noite.  Por não ter tomado banho ontem, o jeito foi encarar um rio nas proximidades, aproveitando também que algumas pessoas também estavam fazendo o mesmo.   Mais uma trovuada se formou que dava medo, e fui direto buscar abrigo na Cruz Vermelha mas estava feichada.   Então fiz amizade com o dono de uma papelaria e ele conseguiu gentilmente um lugar no ferro velho pra eu passar a noite onde havia um vigia.   Estendi meu saco de dormir encima de uma porta e foi uma noite tranquila.  É muito aventureiro imaginar qual será a próxima parada para dormir, lembrando do parênteses aberto por meus conterrâneos que vieram de fusca desde Florianópolis para Atlanta, Roberto e Flávio: nós viajantes sempre acordamos em lugares diferentes mas temos a sensação de estar em casa.     Acordei cedo e tratei de dar no pé, não encontrei o guarda para poder agradecer pelo apoio e fui embora.

De Nacaome, faltavam 35 km até a fronteira de El Salvador onde fiz a travessia sem problemas.A estrada era péssima nesse país e ainda por cima, muitas montanhas.  O rendimento era pouco, foram 97 km pedalados nesse dia em mais de 8 horas até chegar San Miguel e fui direto para a Cruz Vermelha mas estava feichada.

 

     Esperei um pouco conversando com dois cidadãos salvadorenhos que me perguntavam sobre a viagem e depois de uns vinte minutos uma ambulãncia chegou.   Apenas tinha o motorista e ele me deixou dormir ali, mas feichor tudo e o jeito foi dormir encima de uma maca. 

No dia seguinte cedo, chegaram os socorristas e então carimbei minha agenda com o carimbo da Companhia para registrar minha passagem por ali.  Pretendia dormir na cidade de San Vicente mas o dia foi muito cansativo e não consegui chegar lá.  

 

Já estava muito cansado e parei no primeiro restaurante para almoçar, então pedi um ensopado de frango com arroz, salada e tomei mais de um litro de suco de abacaxi natural e nem percebi que o frango estava estragado.   Gastei mais de cinco dólares pelo almoço por causa do suco que custou mais que a comida.

    Quase chegando em San Vicente,  um rapaz me sugeriu voltar e dormir num posto da polícia civil  que com certeza eles me dariam apoio.   No pensei muito e dei meia volta.   Desci 4 km e no caminho encontrei logo após uma ponte, uma blitz dos policiais desse posto onde iria passar a noite.   Conversei com eles sobre o meu caso e mostrei a agenda com os carimbos por onde passei e foi fácil, o chefe da operação passou um rádio para os outros policiais que estavam no posto avisando da minha chegada pedindo a eles que me esperassem na estrada pois o posto policial ficava dentro de um povoado de difícil acesso.   

Chegando lá, fui logo recebido com um aperto de mão e os policiais me ajudaram com a bicicleta para subir a montanha.    Cheguei e me instalei no quarto que eles ofereceram para eu dormir.    Tomei um banho de caneca porque não havia chuveiro, a água era fria mas não fez diferença por causa do calor.  

 No dia seguinte, acordei com uma diarréia por causa daquele frango estragado, perdi muito líquido e me sentia fraco para pedalar.  Os policiais muito atenciosos comigo, perguntaram se eu queria ir para um hospital, mas eu não quis.  Apenas tomei um remédio para o estômago que eles ofereceram e voltei pra cama, pois não me sentia em condições nem de ficar em pé.  E o domigo de 12 de maio foi assim, da cama pro banheiro e do banheiro pra cama.  Perguntei aos policiais se podia ficar mais uma noite ali, e eles me disseram que eu podia ficar o tempo que fosse necessário para eu recuperar da diarréia.  Na segunda-feira quase recuperado, resolvi continuar viagem morro acima.  

A intenção, era chegar na capital San Salvador mas não foi possível e consegui alojamento na cidade de Cajutepeque, a 43 km dali, do Posto Policial.

 

DE SAN SALVADOR PARA GUATEMALA: Daqui eram apenas 30 km até a capital onde no mesmo dia, carimbei o passaporte para a Guatemala e me alojei na Cruz Vermelha num quarto com ar condicionado.  Que beleza! 

 No dia seguinte, pedalei apenas 41 km até próximo da fronteira e consegui  alojamento num Posto Policial.  A noite foi tranquila e no outro dia pela manhã, atravessei a fronteira para a Guatemala, restando desde ali, 166 km até a capital, Guatemala.


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